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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

Não dá para fazer pesquisa de ponta em todo lugar e sobre tudo

25 set, 2026 • 6 min de leitura

Um estudo com 9 milhões de cientistas mostra que instituições de maior impacto têm agendas de pesquisa mais alinhadas. O problema da pesquisa científica no Brasil é o oposto.

Por Pierre Lucena

Há uma posição que eu defendo e que costuma incomodar no meio acadêmico: a pesquisa que disputa alguma coisa no mundo funciona em densidade. Ela depende de grupos grandes, com gente suficiente trabalhando nos mesmos problemas, formando alunos juntos, dividindo infraestrutura e acumulando conhecimento ao longo de muitos anos. Um pesquisador brilhante isolado pode produzir coisas importantes, e há áreas em que o trabalho individual continua sendo a regra. Mas não é assim que se joga o jogo global da ciência na maior parte dos campos que hoje definem a competitividade de um país.

Um estudo com 9 milhões de cientistas

Um estudo publicado nesta semana na revista Scientometrics ajuda a olhar para isso com dados em escala mundial. Márcia Ferreira, Rodrigo Costas, Vito Servedio e Stefan Thurner, do Complexity Science Hub, em Viena, e do CWTS da Universidade de Leiden, reconstruíram o histórico de publicação de cerca de 9,3 milhões de cientistas ligados a 3.965 instituições de pesquisa. A base reúne mais de 25 milhões de documentos publicados entre 2000 e 2020. A pergunta deles era o quanto os temas de quem muda de instituição se alinham aos temas de quem já estava lá. O alinhamento é alto em geral (a instituição mediana tem similaridade de 0,84 numa escala de zero a um) e cresce com o impacto científico da instituição, medido pela proporção de artigos entre o 1% mais citado em cada tema. Ou seja, nas melhores instituições do mundo, quem chega pesquisa coisas muito próximas do que a casa já pesquisa, e a casa se mantém concentrada nas próprias competências. Alinhamento temático não é exatamente o mesmo que tamanho de grupo, mas os dois fenômenos se encontram num ponto importante: quanto mais uma instituição concentra contratações e colaboração em competências já existentes, maior a chance de formar massa crítica em torno de problemas comuns.

O estudo não prova que a concentração cause a excelência. Pode ser que as melhores instituições selecionem quem reforça suas áreas, que os pesquisadores procurem os lugares mais fortes no seu campo ou que a convivência aproxime as agendas depois da chegada, e os autores não conseguem separar esses mecanismos. Há, porém, um resultado que me parece revelador: a dispersão temática, aquela de instituições em que cada pesquisador trabalha num tema diferente, aparece sobretudo nas instituições com impacto abaixo ou perto da média mundial. A exceção lembrada pelos autores é o Institute for Advanced Study, em Princeton, que foi desenhado deliberadamente para receber pesquisadores de passagem e provocar encontros improváveis. Isso não prova que dispersão cause baixo desempenho, mas enfraquece a ideia de que agendas muito pulverizadas sejam, por si mesmas, sinal de ousadia intelectual.

Por que a pesquisa científica no Brasil é tão fragmentada

Esse retrato se parece muito com o Brasil. Temos linhas fortes, especialmente nos centros com mais tradição de pesquisa, mas o que predomina é o fracionamento. Os pesquisadores estão vinculados às universidades, e as universidades os espalham por departamentos, programas e linhas que raramente chegam a formar massa crítica. Na minha área, finanças, dificilmente se encontra um departamento com mais de dez professores de alto impacto em pesquisa trabalhando no mesmo lugar. É o efeito de acharmos que dá para ser bom em tudo, em todo canto. Cada universidade quer ter um pouco de cada coisa, e o resultado é um sistema com muitos grupos pequenos e poucos grupos capazes de competir fora do país.

A inteligência artificial deixa isso ainda mais evidente. O próprio estudo encontra alinhamento menor em computação e matemática, áreas historicamente mais individuais, mas, na minha leitura, a IA de fronteira caminhou na direção oposta. Em vários de seus segmentos, hoje ela se parece mais com a física experimental do que com a matemática tradicional, porque exige capacidade computacional, dados, engenharia e equipes grandes trabalhando de forma coordenada. Os centros que disputam essa fronteira no mundo reúnem centenas de pesquisadores. Se o Brasil quiser competir de verdade, as universidades que escolherem essa área precisariam ter pesquisadores de IA na casa das centenas, e não das dezenas. Com dez ou vinte pessoas bem formadas, espalhadas por departamentos diferentes, dá para fazer boa pesquisa e formar bons alunos, mas dificilmente para disputar a fronteira.

E não precisamos olhar para fora para ver que concentração funciona. Os casos mais bem-sucedidos da ciência brasileira são justamente aqueles em que conseguimos concentrar gente. A Embrapa reuniu pesquisadores em torno de problemas bem definidos e ajudou a transformar o cerrado numa das regiões agrícolas mais produtivas do mundo. A Fiocruz acumula mais de um século de trabalho em saúde pública e, na pandemia, esteve entre as instituições que garantiram a produção nacional de vacinas. A lógica é parecida nos dois casos: gente suficiente, em torno de uma missão clara, com continuidade ao longo do tempo. É o que falta à maior parte da pesquisa feita nas universidades.

O que é preciso para concentrar pesquisa sem concentrar o país

A objeção mais previsível é que concentrar significa escolher vencedores e aprofundar desigualdades regionais. É uma objeção séria, e os mesmos exemplos ajudam a respondê-la. A Embrapa não está concentrada num lugar só: tem unidades espalhadas pelo país, cada uma especializada, como a Embrapa Semiárido, em Petrolina. A Fiocruz tem unidades fora do Rio, inclusive no Recife. Concentrar por tema não exige colocar tudo no Sudeste, e pode até ser uma estratégia de desenvolvimento regional se cada região escolher onde quer ser densa. Além disso, espalhar também é uma escolha, só que feita sem que ninguém precise assumi-la. O custo dela aparece na forma de centenas de grupos pequenos que nunca ganham escala.

Isso exige das universidades algo que elas fazem mal, que é escolher. Pra começar, as contratações precisariam ser feitas para adensar as poucas áreas em que a universidade decidiu ser forte, e não repartidas para que todos os departamentos recebam um pouco. Em segundo lugar, precisaríamos tratar o professor recém-chegado como alguém que vai fortalecer um grupo que já existe, aproveitando o que foi acumulado ali, e não como alguém que precisa abrir a própria linha para existir. E, por fim, o financiamento teria que seguir a mesma lógica, indo para grupos com escala e horizonte longo. Nada disso se sustenta se cada universidade continuar tentando disputar tudo.

Os autores do estudo registram uma preocupação que vale mencionar: nas instituições de elite, o excesso de alinhamento pode, com o tempo, fechar espaço para o que é novo. É um risco real, mas é um risco de quem já tem massa crítica, e importar essa preocupação sem olhar para o nosso ponto de partida leva a um diagnóstico torto. Para a pesquisa brasileira, a pergunta vem antes: em que áreas estamos dispostos a concentrar gente suficiente para jogar o jogo global, abrindo mão de estar em todas?

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Referência: Ferreira, M. R., Costas, R., Servedio, V. D. P. & Thurner, S. “Scientific mobility, prestige and topic alignment in research institutions”. Scientometrics, publicado em 24 de setembro de 2026. Dados de 2000 a 2020 (base Dimensions); versão preliminar no arXiv desde 2023. https://link.springer.com/article/10.1007/s11192-026-05815-7

Ver també: IA muda de vez o trabalho acadêmico

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