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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

O curso de Administração está conectado o suficiente com o mercado de trabalho?

8 set, 2026 • 7 min de leitura

Quando se fala em formação em Administração, a discussão sobre mercado aparece quase automaticamente. Às vezes, de forma simplista: de um lado, a ideia de que a universidade deveria aproximar o curso das empresas; de outro, o receio de que isso transforme a graduação em treinamento para emprego. Os dados que levantamos com estudantes de Administração da UFPE sugerem uma questão mais interessante do que essa oposição.

Na pesquisa realizada em 2025 com 377 estudantes, apenas 11,7% apontaram diretamente “pouca conexão com o mercado de trabalho” entre os principais desafios para permanecer no curso. O percentual ficou abaixo de questões como deslocamento, conciliação entre trabalho e estudo e percepção de aulas muito teóricas, com pouca prática. Se olhássemos apenas para essa resposta, seria fácil concluir que mercado não ocupa um lugar tão importante na experiência dos alunos. Os cruzamentos, porém, mostram que o tema reaparece de outras formas.

Quando a prática parece distante, o mercado ganha peso

Entre os estudantes que apontaram “aulas muito teóricas, com pouca prática” como um dos principais desafios, 80% consideraram o contato com o mercado de trabalho muito importante. Entre os demais, esse percentual ficou em torno de 69%.

Não há base para dizer que uma coisa provoca a outra. O que aparece é uma associação interessante: a percepção de pouca prática vem acompanhada de maior valorização do contato com organizações e situações reais. O termo “mercado” talvez apareça menos como uma demanda isolada e mais como parte de uma expectativa sobre o sentido da formação.

Isso fica ainda mais claro quando olhamos para quem já trabalha.

Entre estudantes que trabalhavam ou empreendiam, 74% consideraram a integração entre teoria e prática muito importante. Entre os que apenas estudavam, foram 56%. Quem já vive a rotina das organizações parece atribuir mais valor à capacidade de relacionar conceito e realidade.

Esse resultado pode ser lido de uma forma diferente da habitual. Talvez o estudante que trabalha não queira menos teoria. Talvez ele perceba com mais nitidez quando uma boa teoria ajuda a compreender um problema concreto — e quando essa ponte não está suficientemente visível.

Prática não significa abandonar a formação teórica

A mesma associação aparece em outras respostas. Entre os estudantes que apontaram “aulas muito teóricas, com pouca prática”, 57% consideraram aulas de campo ou atividades práticas muito importantes, contra 38% entre os demais. Nas disciplinas práticas, os percentuais foram 60% e 48%.

Contato com mercado, aulas de campo, disciplinas práticas e integração teoria-prática parecem fazer parte de uma mesma preocupação: compreender melhor onde o conhecimento encontra problemas reais.

Isso não diminui o papel da teoria. Em Administração, uma formação presa apenas à prática imediata corre o risco de envelhecer rápido. Ferramentas, tecnologias e métodos de gestão mudam; conceitos, modelos e capacidade de abstração ajudam o profissional justamente a lidar com situações que ainda não conhece.

A força de uma boa teoria está em permitir que o aluno enxergue mais do que a experiência cotidiana mostra. O problema surge quando esse valor não se torna perceptível ao longo da formação.

Universidade e mercado não precisam ocupar lados opostos

A aproximação com organizações também não significa entregar o currículo às demandas imediatas das empresas. A universidade tem uma função mais ampla: formar capacidade de análise, repertório, pensamento crítico e autonomia intelectual. Precisa inclusive ser capaz de discordar do mercado, questionar práticas estabelecidas e oferecer ao estudante instrumentos para compreender transformações que ainda não chegaram plenamente às empresas.

Mas Administração é uma área que estuda organizações. Por isso, manter o mundo organizacional excessivamente distante da formação também seria estranho. Empresas, governos, organizações sociais e empreendimentos podem funcionar como ambientes onde conceitos são testados, comparados e questionados.

Uma atividade prática bem desenhada não substitui o conhecimento. Ela cria uma situação em que o conhecimento precisa funcionar.

Um estudo de caso, uma empresa júnior, um projeto de extensão, uma pesquisa aplicada ou um desafio real podem ter pouco valor se forem tratados apenas como experiência. Ganham profundidade quando obrigam o estudante a mobilizar conceitos para compreender o que está acontecendo, avaliar alternativas e justificar decisões.

A ponte entre universidade e mercado é útil justamente quando continua sendo uma ponte — e não quando um dos lados passa a substituir o outro.

Quando a própria experiência com o curso pesa

Há outro cruzamento que merece atenção. Entre os estudantes que apontaram “aulas muito teóricas, com pouca prática”, cerca de 20% escolheram “o curso não atende às minhas expectativas” como principal motivo num cenário hipotético de trancamento ou desistência. Entre os demais, esse percentual ficou próximo de 8%.

A pergunta era hipotética, portanto esses números não significam intenção real de saída e não demonstram causalidade. Eles mostram, porém, que a percepção sobre a forma como o curso articula teoria e prática está associada à maneira como parte dos estudantes avalia a própria experiência na graduação.

Aqui talvez esteja um ponto mais importante do que perguntar simplesmente se há “contato com o mercado”. Um estudante pode frequentar palestras de executivos, realizar estágio e ainda assim não perceber claramente como as disciplinas se conectam com os problemas que encontra. Da mesma maneira, uma disciplina muito teórica pode ser extremamente relevante quando o professor consegue mostrar o que aquela teoria permite compreender.

A questão não é apenas quantidade de prática. É qualidade da conexão.

O mercado pode entrar na formação sem comandá-la

Há muitas formas de construir essa conexão sem empobrecer a universidade. Projetos com organizações, empresas juniores, estágio, extensão, pesquisa aplicada, laboratórios, estudos de caso, desafios reais e contato com profissionais podem ampliar a formação quando são integrados ao conhecimento acadêmico, e não colocados ao lado dele como atividades independentes.

Esse desenho exige trabalho. É muito mais fácil acrescentar uma palestra ao calendário ou criar uma disciplina chamada “prática” do que reorganizar a experiência para que diferentes conteúdos conversem com problemas concretos. Mas talvez seja justamente aí que esteja parte do desafio.

O aluno não precisa apenas ver uma empresa. Precisa aprender a olhar para ela.

Não precisa apenas conhecer um problema real. Precisa ter instrumentos para entendê-lo melhor do que entenderia antes de passar pela universidade.

É nesse ponto que teoria e prática deixam de competir.

Uma pergunta maior do que “mercado”

O primeiro dado deste texto continua sendo importante: apenas 11,7% dos estudantes apontaram diretamente “pouca conexão com o mercado de trabalho” entre seus principais desafios. Seria um erro ignorá-lo e construir uma narrativa na qual os alunos estariam exigindo uma graduação muito mais orientada às empresas.

Os dados não mostram isso.

O que aparece, quando olhamos diferentes respostas em conjunto, é uma valorização considerável das situações em que teoria, prática e organizações se encontram. Essa valorização é ainda maior entre alguns grupos, especialmente entre quem já trabalha ou entre quem percebe o curso como excessivamente teórico e pouco prático.

Talvez, então, “conexão com o mercado” seja uma expressão pequena demais para a questão.

O estudante pode não estar pedindo uma universidade mais subordinada ao mercado. Pode estar querendo compreender melhor por que aprende determinados conceitos, que problemas eles ajudam a explicar e como o conhecimento acadêmico melhora sua capacidade de agir diante de situações reais.

Isso é bem diferente.

Uma boa graduação em Administração não precisa escolher entre teoria e prática, entre universidade e mercado ou entre reflexão e aplicação. O desafio é fazer cada uma dessas dimensões elevar a qualidade da outra.

A pesquisa tem um recorte específico: 377 estudantes de Administração da UFPE, pesquisados em 2025. Esses resultados não representam todos os cursos de Administração do país e não permitem generalizações desse tipo.

Mas deixam uma pergunta que talvez valha muito além desta amostra: o estudante consegue perceber, ao longo da graduação, o que passa a compreender melhor sobre as organizações justamente porque passou pela universidade?

Nem tudo que importa já tem nome.

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