Há uma imagem de estudante universitário que continua orientando boa parte da organização dos cursos: alguém que estrutura o dia em torno da universidade, com tempo para assistir às aulas, estudar, participar de atividades e permanecer no campus. Essa imagem ainda existe, mas já não descreve boa parte dos alunos que encontramos na pesquisa com 377 estudantes de Administração da UFPE, realizada em 2025.
Só 32% disseram que apenas estudavam. A maioria conciliava a graduação com estágio, trabalho, empreendedorismo ou outras atividades. Isso muda bastante a forma como o curso entra na vida do aluno. Para quem trabalha, a universidade disputa espaço com horário de entrada, reunião, cliente, entrega, deslocamento, renda e uma rotina que já estava ocupada antes mesmo de a aula começar.
A diferença aparece com muita força nos dados. Entre os estudantes que trabalhavam ou empreendiam, 58,5% apontaram dificuldade para conciliar trabalho e graduação entre os principais desafios. Entre aqueles que só estudavam, foram 9,9%. Quase seis vezes menos.
O mesmo curso, portanto, pode significar rotinas bastante diferentes para quem está dentro dele.
A rigidez pesa de forma desigual
A carga horária inflexível também aparece de maneira diferente entre os grupos. Entre os estudantes que trabalhavam ou empreendiam, 16,9% apontaram esse fator como um dos desafios. Entre quem só estudava, foram 7,4%.
Para um aluno com o dia relativamente livre, uma atividade fora do horário pode ser apenas incômoda. Para outro que precisa cumprir jornada de trabalho, atravessar a cidade e chegar à universidade à noite, pode ser inviável. O problema não está necessariamente na existência de horários, presença ou organização acadêmica. Está no fato de que a mesma rigidez tem custos muito diferentes conforme a vida de quem precisa se adaptar a ela.
Essa diferença aparece também naquilo que os estudantes dizem valorizar. Entre os que trabalhavam ou empreendiam, 47% consideraram a flexibilidade de horários muito importante. Entre os que só estudavam, foram 35%. Nos formatos EAD ou híbridos, 72% dos trabalhadores e empreendedores consideraram essa possibilidade importante ou muito importante, contra 57% entre os demais.
É tentador interpretar isso como busca por conveniência. Os outros dados tornam essa leitura menos convincente.
Quem pede flexibilidade também pede qualidade

Entre trabalhadores e empreendedores, 74% consideraram a integração entre teoria e prática muito importante. Entre quem só estudava, foram 56%.
Esse resultado muda o tom da discussão. O grupo que enfrenta mais dificuldade para encaixar a graduação na rotina também atribui mais valor à conexão entre o que aprende e o que encontra fora da universidade.
Não parece, portanto, uma demanda simplesmente por menos exigência. Pode ser uma demanda por melhor organização do tempo e por uma formação que faça mais sentido dentro desse esforço.
A distinção é importante porque, na universidade, rigor e rigidez às vezes acabam tratados como se fossem a mesma coisa. Não são.
Rigor acadêmico diz respeito ao que o estudante precisa aprender, compreender e ser capaz de fazer. Rigidez organizacional diz respeito à forma como estruturamos o caminho até esse resultado. É perfeitamente possível exigir muito sem desperdiçar tempo, preservar atividades presenciais importantes sem obrigar todas as experiências a seguir o mesmo formato e manter uma formação teórica sólida sem tratar flexibilidade como concessão.
Uma graduação mal organizada pode ser mais excludente do que uma graduação exigente.
Quando a rotina entra na permanência

A questão aparece novamente quando perguntamos qual seria o principal motivo num cenário hipotético de trancamento ou desistência. Entre os estudantes que trabalhavam ou empreendiam, 40,3% apontaram a necessidade de trabalhar ou a dificuldade de conciliar trabalho e estudo. Entre quem só estudava, esse percentual foi de 20,4%.
A pergunta era hipotética e não significa intenção real de saída. Tampouco permite dizer que trabalho ou falta de flexibilidade causam evasão. O que ela mostra é que a rotina profissional ocupa um espaço muito maior na forma como esses estudantes pensam a possibilidade de continuar no curso.
Isso ajuda a deslocar um pouco a discussão sobre permanência. Permanecer não depende apenas de querer continuar estudando. Depende também de conseguir tornar isso possível.
Para uma parte dos alunos, o conflito não está entre gostar ou não do curso. Está entre dois compromissos concretos que precisam caber no mesmo dia.
O curso foi desenhado para o estudante que temos hoje?
Muitas práticas universitárias nasceram num contexto em que o estudante podia organizar mais facilmente a vida em torno da graduação. Horários fragmentados, longos intervalos, eventos em horários intermediários, reuniões fora do turno regular e trabalhos que exigem encontros presenciais são administráveis para quem tem a universidade como principal compromisso.
Para quem precisa encaixar a universidade numa agenda profissional, cada uma dessas escolhas tem outro peso.
Isso não significa adaptar a graduação à agenda individual de cada aluno. Nem transformar tudo em remoto. Nem reduzir presença, leitura, avaliação ou exigência. Significa apenas fazer uma pergunta que nem sempre fazemos: quais práticas são realmente necessárias para produzir aprendizagem e quais permanecem porque sempre foram organizadas assim?
Há uma diferença grande entre preservar aquilo que tem valor pedagógico e preservar aquilo que virou hábito institucional.
Flexibilidade sem empobrecimento
Uma universidade não deveria ser apenas uma plataforma eficiente para entregar conteúdo. Parte importante da experiência universitária está justamente na presença, na convivência, na discussão, nos projetos, nos encontros e nas relações que surgem fora da grade. Se tudo for convertido em conveniência, perde-se parte do que torna a universidade diferente de um curso online.
Mas reconhecer esse valor não exige ignorar a rotina concreta dos estudantes.
Talvez o desafio esteja em escolher melhor onde a presença é indispensável, organizar de forma mais inteligente os horários, concentrar atividades quando fizer sentido e usar formatos híbridos em situações em que eles ampliem acesso sem diminuir qualidade.
O ponto não é fazer menos. É organizar melhor.
Para o estudante que trabalha, tempo é um recurso escasso. Se a universidade exige esse tempo, precisa usá-lo bem.
O que os dados parecem dizer
Quando observamos os resultados em conjunto, aparece um padrão relativamente consistente. Quem trabalha enfrenta mais dificuldade para conciliar graduação e rotina profissional, percebe mais a inflexibilidade dos horários, valoriza mais formatos flexíveis e, ao mesmo tempo, valoriza mais a integração entre teoria e prática.
Essas respostas não combinam muito com a caricatura de um aluno que quer uma graduação mais fácil.
Combinam mais com alguém que quer conseguir permanecer numa formação exigente sem precisar escolher continuamente entre universidade e vida profissional.
Talvez seja essa a pergunta mais útil para os cursos de Administração hoje. Não se os estudantes querem menos rigor, mas se estamos organizando o rigor da melhor forma possível para o perfil de aluno que realmente está na sala.
A pesquisa tem um recorte específico: 377 estudantes de Administração da UFPE, pesquisados em 2025. Os resultados não representam todos os cursos de Administração do país.
Mas deixam uma questão que pode valer bem além dessa amostra: o curso que oferecemos está organizado para os estudantes que temos — ou para os estudantes que ainda imaginamos ter?
