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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

Mercado, didática, prática ou currículo: o que mais importa em Administração?

10 set, 2026 • 5 min de leitura

Quando se pergunta o que faz diferença numa graduação em Administração, é fácil imaginar que a resposta seja o mercado de trabalho. Faz sentido. Administração é um curso profissional, muitos estudantes já trabalham durante a graduação e boa parte chega à universidade pensando também em carreira, estágio e empregabilidade. Mas o ranking dos atributos mais valorizados pelos estudantes mostra uma história menos linear.

Na pesquisa realizada em 2025 com 377 estudantes de Administração da UFPE, os alunos avaliaram 27 atributos importantes para sua permanência no curso. A escala ia de 1, “sem importância”, a 5, “muito importante”. O item com maior média foi reconhecimento do curso no mercado de trabalho, com 4,70. Logo depois apareceu didática dos docentes, com 4,67. Em terceiro lugar veio contato com o mercado de trabalho, com 4,62.

Só esse começo já diz bastante. O mercado aparece com força, mas a qualidade do ensino aparece praticamente no mesmo nível. Entre o primeiro e o segundo colocado, a diferença é de apenas três centésimos. Na sequência vieram oportunidades de estágio, com 4,53; integração entre teoria e prática, também com 4,53; grade curricular atualizada, com 4,52; e segurança, igualmente com 4,52. Depois surgem inclusão e acessibilidade, facilidade de contato com a coordenação, estrutura do prédio, qualidade do Wi-Fi e limpeza.

Não é um ranking organizado em torno de uma única ideia. Ele combina reputação profissional, qualidade pedagógica, contato com organizações, estágio, currículo, teoria, prática e condições concretas de estudo.

Essa mistura me parece mais interessante do que uma conclusão apressada do tipo “os alunos querem mais mercado”. Há uma tendência antiga de colocar essas dimensões em lados opostos. De um lado, a universidade acadêmica, preocupada com teoria e conhecimento. Do outro, uma formação mais prática, voltada para empresas e empregabilidade. Os estudantes pesquisados não parecem enxergar essa fronteira com tanta nitidez.

Entre os cinco primeiros atributos estão três diretamente ligados ao mundo do trabalho: reconhecimento do curso no mercado, contato com o mercado e oportunidades de estágio. No mesmo grupo aparecem didática dos docentes e integração entre teoria e prática. O que emerge daí não é uma escolha entre universidade e mercado, mas uma expectativa de conexão entre os dois.

A prática que mais importa é a que conversa com a teoria

O próprio questionário permite enxergar isso melhor. “Prática” aparece de formas diferentes. Integração entre teoria e prática teve média 4,53. Ter disciplinas práticas, 4,26. Aulas de campo ou práticas, 4,05.

O ponto mais valorizado, portanto, não foi simplesmente “ter mais prática”. Foi fazer teoria e prática conversarem.

Essa diferença é importante. Quando um estudante pede mais contato com situações reais, organizações ou problemas concretos, isso não significa necessariamente rejeição à teoria. Pode significar que ele quer entender onde aquele conhecimento funciona, onde falha, como ajuda a interpretar problemas e o que muda quando sai da sala de aula.

Em Administração, isso é particularmente evidente. Estratégia não precisa virar consultoria para dialogar com problemas reais. Finanças não perde densidade porque trabalha com decisões concretas. Estatística não fica menos rigorosa quando é usada para investigar uma situação real. Marketing não precisa transformar a universidade em agência para aproximar conceito e aplicação.

A boa prática não substitui a teoria. Ela a coloca à prova.

Estar no fim do ranking não significa não importar

Também é preciso cuidado com os últimos lugares. Entre as menores médias estavam projetos de extensão, com 4,00; workshops, palestras e eventos, com 3,86; incentivo ao empreendedorismo, com 3,82; e oferta de atividades no formato EAD ou híbrido, com 3,81.

Seria errado concluir que os estudantes não valorizam esses itens. Na escala utilizada, 4 significava “importante”. Mesmo o último colocado ficou muito próximo disso. O ranking serve mais para mostrar prioridades relativas do que para separar o que importa do que não importa.

E o topo é bastante coerente: reconhecimento profissional, didática, contato com o mercado, estágio, integração entre teoria e prática e currículo atualizado. Para mim, isso não parece uma lista de estudantes pedindo uma universidade menos acadêmica. Parece uma lista de estudantes querendo que a formação acadêmica produza mais sentido.

Há uma discussão legítima sobre até que ponto a universidade deve responder às demandas do mercado. Eu não acho que o currículo deva simplesmente seguir o que as empresas pedem num determinado momento. A universidade perderia muito de sua função se fizesse apenas isso. Ela também precisa formar pessoas capazes de compreender problemas novos, questionar práticas estabelecidas e construir conhecimento.

Mas o extremo oposto não me convence. Uma formação que se fecha em si mesma, sem criar pontes entre conceitos e problemas reais, pode acabar tornando o conhecimento mais abstrato do que precisa ser.

É justamente por isso que o ranking me parece interessante. O item mais valorizado fala de reconhecimento profissional. O segundo fala de didática. O terceiro, de contato com o mercado. Depois aparecem estágio, integração entre teoria e prática e currículo atualizado.

Os estudantes pesquisados não parecem pedir que a universidade escolha entre mercado, ensino, prática ou currículo. Eles parecem valorizar os pontos em que essas dimensões se encontram.

Uma boa graduação precisa ensinar bem, preservar rigor, manter o currículo intelectualmente relevante e, ao mesmo tempo, permitir que o estudante compreenda como aquele conhecimento conversa com o mundo em que vai atuar.

Os dados não dizem qual deve ser o currículo ideal de Administração, nem permitem generalizar essas preferências para todos os cursos ou universidades. Eles mostram o que 377 estudantes de Administração da UFPE valorizaram ao avaliar 27 dimensões de sua experiência de graduação.

Talvez a mensagem mais interessante esteja justamente aí.

Não é preciso escolher entre mercado, didática, prática ou currículo.

O desafio é fazer essas coisas funcionarem juntas.

Nem tudo que importa já tem nome.

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