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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

Administração de manhã e à noite: o mesmo curso, a mesma experiência?

10 set, 2026 • 4 min de leitura

Quando falamos de um curso universitário, é comum pensar que a experiência dos estudantes depende principalmente do currículo, dos professores, das disciplinas e da estrutura da instituição. Tudo isso importa. Mas há uma variável bem mais simples que altera bastante o perfil de quem está em sala: o turno.

Na pesquisa realizada em 2025 com 377 estudantes de Administração da UFPE, 372 informaram estudar pela manhã ou à noite. A diferença entre os dois grupos aparece logo na ocupação. Entre os estudantes da manhã, 46,9% disseram que apenas estudavam. À noite, eram 23%. Quando agrupamos estágio, trabalho em empresa familiar, emprego fixo e empreendedorismo, cerca de 52% dos alunos da manhã exerciam alguma atividade profissional. No turno da noite, esse percentual chegava a aproximadamente 75%.

A distância fica ainda maior quando olhamos apenas para quem tinha emprego fixo. Pela manhã, eram cerca de 8%. À noite, 39%. Não é uma diferença pequena. Ela ajuda a mostrar que, embora o currículo seja o mesmo, os dois turnos reúnem estudantes com rotinas bastante distintas.

Isso aparece também nos desafios para permanecer no curso. A dificuldade de conciliar trabalho e graduação foi mencionada por 31% dos estudantes da manhã e por 39,6% dos estudantes da noite. Já deslocamento e distância foram apontados por 49,7% dos alunos da manhã e por 41% dos da noite. Essas diferenças são descritivas e não permitem afirmar que o turno seja a causa de qualquer uma delas. O que mostram é que manhã e noite concentram combinações diferentes de restrições.

Há dois resultados que chamam mais atenção. A desmotivação com o curso foi mencionada por 29,7% dos estudantes da manhã e por 17,2% dos estudantes da noite. Já a sensação de campus esvaziado e perda da convivência universitária apareceu em 8,3% da manhã e 17,6% da noite. Nos dois casos, houve associação estatisticamente significativa com o turno dentro da amostra pesquisada.

O mais interessante é que esses resultados não apontam para uma leitura simples em que um turno seja melhor e o outro pior. Eles sugerem outra coisa: os problemas mudam de natureza. Pela manhã, aparecem com mais força questões como deslocamento e desmotivação. À noite, o trabalho pesa muito mais na composição da turma e a percepção de esvaziamento do campus aparece com maior frequência.

Mas talvez o dado mais revelador seja justamente aquele em que quase não existe diferença. Quando perguntamos se o estudante já havia pensado em desistir ou trancar o curso de Administração, 40,7% dos alunos da manhã responderam sim. À noite, foram 41,8%. A diferença é praticamente inexistente e, estatisticamente, não foi significativa.

Esse resultado é importante porque mostra o limite de olhar apenas para um indicador agregado. Se observássemos somente a proporção de estudantes que já pensou em sair, poderíamos concluir que manhã e noite vivem situações muito parecidas. Os dados anteriores mostram que não é bem assim.

O resultado pode ser parecido. O caminho até ele, não.

Esse é talvez o ponto mais interessante da comparação entre os turnos. Um mesmo indicador final pode esconder experiências muito diferentes. Para alguns estudantes, a pressão parece estar mais associada ao trabalho. Para outros, a deslocamento, desmotivação ou à própria experiência de estar no campus. O número agregado sozinho não revela essas diferenças.

Também não é verdade que tudo mude de um turno para o outro. Em dimensões como networking, ambiente de convivência e relação com colegas, as diferenças foram pequenas e não apareceram como estatisticamente significativas na análise simples por turno. Isso importa porque impede que a comparação vire uma caricatura.

Não estamos diante de dois cursos diferentes. Estamos diante da mesma graduação encontrando estudantes com perfis diferentes.

E isso tem implicações para a forma como pensamos a experiência universitária. Currículos, horários, atividades extracurriculares, eventos, orientação acadêmica e oportunidades de convivência costumam ser organizados de maneira relativamente uniforme. Mas os estudantes que recebem essa oferta não chegam à universidade em condições uniformes.

Quem estuda pela manhã e tem a graduação como principal ocupação dispõe de uma relação com o tempo diferente daquela do estudante que passou o dia trabalhando e chega à universidade no fim do expediente. Isso não significa defender menos rigor, nem currículos distintos. Significa reconhecer que a organização do curso encontra estudantes com vidas concretas, e não um estudante abstrato.

Talvez essa seja a pergunta mais útil: quando pensamos o curso de Administração, estamos olhando apenas para o que é oferecido ou também para quem efetivamente precisa viver essa experiência?

O currículo pode ser o mesmo.

A vida dos estudantes não é.

E compreender essa diferença também faz parte de pensar o futuro da graduação em Administração.

Nem tudo que importa já tem nome.

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