Ao longo da pesquisa, perguntamos aos estudantes sobre trabalho, deslocamento, teoria e prática, mercado, vida universitária, horários e permanência. No final, fizemos algo diferente: retiramos as alternativas e deixamos uma pergunta aberta. “O que você acredita que a universidade ou o curso poderia fazer para te ajudar a permanecer e concluir sua graduação?”
Dos 377 estudantes de Administração da UFPE que participaram da pesquisa em 2025, 292 responderam a essa questão de forma classificável. Quando agrupamos essas respostas por tema, duas categorias apareceram praticamente no mesmo nível. Melhorias no curso — incluindo aulas mais práticas, currículo e metodologia — representaram 26,0% das respostas. Flexibilidade de horários, EAD ou formatos híbridos, 25,7%. Depois vieram apoio financeiro, com 13,4%; infraestrutura, 11,3%; acolhimento institucional, 10,3%; apoio para o mercado de trabalho, 5,5%; segurança, 4,1%; e atividades extracurriculares, 3,8%.
Não há, portanto, uma resposta que resolva sozinha a questão da permanência. O que aparece é uma combinação de demandas. Algumas dizem respeito diretamente à formação oferecida; outras, à forma como a graduação está organizada; outras ainda, às condições materiais e institucionais necessárias para que o estudante consiga continuar frequentando o curso.
Melhorar a formação e conseguir frequentá-la
A categoria mais citada olha para dentro do próprio curso. Os estudantes mencionaram currículo, metodologia, aulas práticas e organização pedagógica. Esse resultado é coerente com outros pontos da pesquisa. Em uma questão diferente, por exemplo, “aulas muito teóricas, com pouca prática” apareceu entre os desafios relatados para permanecer no curso. Ao mesmo tempo, integração entre teoria e prática, didática dos docentes, currículo atualizado, contato com o mercado e oportunidades de estágio figuraram entre os atributos mais valorizados pelos respondentes.
Isso torna difícil sustentar uma leitura de que os estudantes estejam simplesmente rejeitando teoria ou pedindo uma graduação menos exigente. O que os dados sugerem é outra coisa: eles valorizam a formação acadêmica, mas querem perceber com mais clareza como aquilo que aprendem se conecta com a prática e com o mundo profissional.
A segunda categoria mais frequente leva a discussão para fora da sala de aula. Flexibilidade de horários, EAD e formatos híbridos apareceram em 25,7% das respostas abertas. Esse resultado ganha outra dimensão quando lembramos do perfil de quem respondeu à pesquisa: apenas cerca de um terço declarou somente estudar; a maioria conciliava a graduação com estágio, emprego, bolsa, empresa familiar, empreendedorismo ou outra atividade.
Essa diferença aparece novamente quando cruzamos as respostas abertas com a pergunta sobre já ter pensado em desistir ou trancar o curso. Entre os estudantes que haviam cogitado sair, 34,4% mencionaram flexibilidade de horários, EAD ou formato híbrido como algo que poderia ajudá-los a permanecer. Entre os que nunca haviam pensado em sair, foram 19,3%. O cruzamento foi estatisticamente significativo.
Esse resultado merece cuidado. Ele não demonstra que flexibilizar horários reduziria a evasão, muito menos permite estimar quanto isso ocorreria. A pesquisa é observacional. O que podemos dizer é que a demanda por flexibilidade aparece com muito mais intensidade justamente entre os estudantes que já chegaram a considerar a interrupção do curso.
Há uma nuance interessante quando olhamos as demais respostas. A proporção que mencionou melhorias no curso foi praticamente a mesma entre quem já havia pensado em sair e quem nunca havia pensado nisso: 25,6% e 26,5%, respectivamente. Já infraestrutura foi citada por 6,4% do primeiro grupo e 15,1% do segundo; apoio financeiro, por 9,6% e 15,7%. A grande mudança está mesmo na flexibilidade, que sobe de 19,3% para 34,4% entre os que já cogitaram sair.
Isso ajuda a entender por que olhar apenas para médias gerais pode ser insuficiente. O estudante que trabalha em horário comercial, aquele que passa mais de uma hora no transporte e aquele que consegue dedicar praticamente todo o dia à universidade estão formalmente matriculados no mesmo curso. Podem assistir à mesma disciplina e ter o mesmo professor, mas chegam à universidade em condições muito diferentes.
O curso é o mesmo. A experiência de cursá-lo não é.
O que significa permanecer

Ao longo desta série, uma coisa foi ficando mais clara para mim: tratar a permanência apenas como uma decisão individual empobrece muito a discussão. Há escolhas pessoais, evidentemente, e elas aparecem na própria pesquisa. Mas também aparecem trabalho, tempo de deslocamento, organização dos horários, experiência acadêmica, conexão entre teoria e prática, convivência, apoio institucional e condições financeiras.
É nesse contexto que a pergunta aberta do final se torna especialmente interessante. Quando deixamos de oferecer alternativas e perguntamos diretamente o que a universidade ou o curso poderia fazer, os estudantes não apontaram uma solução única. As duas respostas mais frequentes ficaram praticamente empatadas entre melhorar o curso e torná-lo mais compatível com a vida de quem o frequenta.
Não me parece uma oposição. Pelo contrário.
Uma universidade pode preservar rigor acadêmico e, ao mesmo tempo, repensar como conecta teoria e prática. Pode manter exigência e discutir horários. Pode valorizar a experiência presencial sem ignorar que parte significativa dos estudantes trabalha, enfrenta longos deslocamentos e dispõe de menos tempo para viver o campus.
Flexibilidade não é sinônimo de facilidade. Prática não é ausência de teoria. Aproximação com o mercado não significa transformar a universidade em treinamento para emprego. São discussões diferentes, e talvez um dos resultados mais interessantes da pesquisa seja justamente mostrar como elas se encontram na experiência concreta dos estudantes.
Este é o décimo e último texto desta série baseada na pesquisa realizada em 2025 com 377 estudantes de Administração da UFPE. Os resultados têm esse recorte e não devem ser generalizados automaticamente para outros cursos ou universidades. As associações encontradas também não permitem estabelecer relações de causa e efeito.
Ainda assim, depois de olhar para os dados por tantos ângulos, fica uma questão que me parece mais importante do que procurar uma resposta simples para a evasão: que condições uma universidade precisa oferecer para que seus estudantes não apenas queiram permanecer, mas tenham condições reais de fazê-lo?
