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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

O estudante de Administração ainda quer viver o campus?

8 set, 2026 • 7 min de leitura

Quando pensamos em experiência universitária, quase sempre começamos pela sala de aula: professor, conteúdo, prova, currículo, estágio. Só que uma parte importante da formação acontece fora daí. Está nas conversas de corredor, nos eventos, nas relações com colegas, nas palestras, nos encontros que não estavam previstos na grade e, muitas vezes, nas oportunidades que aparecem justamente porque o estudante permaneceu mais tempo no campus e circulou por ambientes diferentes.

Na pesquisa realizada em 2025 com 377 estudantes de Administração da UFPE, esse lado menos formal da universidade apareceu de um jeito interessante. Quando separamos as respostas por rotina, as diferenças ficaram claras. Entre os estudantes que apenas estudavam, 57% avaliaram eventos, palestras e atividades como bons ou muito bons. Entre os que trabalhavam ou empreendiam, foram 38%. No ambiente de convivência, 59% contra 45%. Em networking, 47% contra 39%. E até na relação com colegas, que é uma das dimensões mais bem avaliadas, apareceu diferença: 78% entre quem só estudava e 69% entre quem trabalhava ou empreendia.

Esses números não autorizam uma conclusão simplista do tipo “quem trabalha gosta menos da universidade”. O que eles mostram é algo mais interessante: estudantes com rotinas diferentes parecem viver o campus de maneiras diferentes. E talvez isso ajude a entender uma mudança importante na própria experiência universitária.

A universidade também acontece no intervalo

Sempre achei limitada a ideia de que a experiência universitária se resume ao que está na matriz curricular. Claro que a formação passa por disciplinas, conteúdos e avaliação. Mas passa também por aquilo que não cabe perfeitamente na grade: conhecer pessoas, participar de um projeto, ouvir uma palestra, conversar com um professor depois da aula, descobrir uma oportunidade porque alguém comentou alguma coisa no corredor, entrar numa empresa júnior, participar de um grupo de pesquisa ou simplesmente conviver com pessoas de outros períodos e outras áreas.

Esse tipo de experiência é difícil de organizar e ainda mais difícil de medir. Mesmo assim, ele conta. Em Administração, talvez conte ainda mais, porque o curso forma para lidar com pessoas, organizações, decisões e ambientes complexos. Parte desse repertório vem das disciplinas. Outra parte vem justamente da convivência, das experiências paralelas e das conexões que o estudante constrói ao longo do curso.

Por isso, quando eventos, networking e convivência recebem avaliações diferentes entre grupos, vale observar a rotina de quem está respondendo. O dado pode dizer menos sobre o interesse do estudante e mais sobre as condições concretas que ele tem para participar dessa vida universitária.

Nem todo mundo consegue permanecer no campus

Só 32% dos estudantes pesquisados se dedicavam exclusivamente aos estudos. A maioria conciliava a graduação com estágio, trabalho, empreendedorismo ou outras atividades. Isso muda bastante a forma como o campus é vivido, porque o estudante que termina uma aula e precisa correr para o trabalho não permanece para uma palestra. Quem depende de um deslocamento longo pensa duas vezes antes de ficar mais uma ou duas horas na universidade. Quem tem uma agenda profissional rígida pode simplesmente não estar disponível para uma atividade marcada no meio da tarde.

A oportunidade pode existir sem estar igualmente acessível. Uma palestra às 16h, por exemplo, pode funcionar muito bem para um aluno que passa o dia na universidade e ser praticamente inviável para outro que trabalha até 18h. O mesmo vale para reuniões de projeto, eventos, monitorias, atividades extracurriculares e até para aquelas conversas informais que acabam sendo parte importante da vida universitária.

O campus é o mesmo. O tempo disponível para vivê-lo, não.

A diferença aparece em várias dimensões

O mais interessante não é um número isolado, mas o padrão. Quem só estuda avalia melhor eventos e atividades, avalia melhor a convivência, avalia melhor o networking e também um pouco melhor a relação com colegas. As distâncias variam de um indicador para outro, e nenhuma delas, sozinha, prova muita coisa. Mas todas apontam na mesma direção.

Não dá para afirmar, a partir dessa pesquisa, que o trabalho cause uma experiência universitária pior. Seria um exagero que os dados não sustentam. Mas é razoável dizer que a rotina fora da universidade parece se relacionar com a forma como o estudante participa do que acontece dentro dela. Isso talvez ajude a entender por que algumas instituições oferecem muitas atividades e, ainda assim, têm dificuldade para mobilizar parte dos alunos.

O problema pode não estar apenas na qualidade da programação. Pode estar também na possibilidade concreta de comparecer, permanecer e participar.

Viver o campus exige tempo

Durante muito tempo, a imagem clássica do universitário foi a de alguém cuja vida estava organizada em torno do curso. A universidade era o centro da rotina. Esse perfil ainda existe, mas já não representa boa parte dos estudantes que encontramos na pesquisa.

Para muitos, a graduação precisa caber ao lado de emprego, estágio, família, deslocamento e outras responsabilidades. A universidade deixa de ocupar o centro do dia e passa a disputar espaço com todo o resto. Isso muda a relação com o campus sem que o estudante necessariamente dê menos valor a ele. Pode até acontecer o contrário: o aluno reconhecer a importância de eventos, networking e convivência e, mesmo assim, não conseguir participar.

É uma diferença importante entre preferência e possibilidade. E ela muda bastante a forma como interpretamos a vida universitária.

Universidade não é apenas conteúdo

Há uma discussão recorrente sobre o que a universidade deve oferecer num mundo em que conteúdo está disponível em todo lugar. Vídeos, cursos online, inteligência artificial e plataformas digitais tornaram o acesso à informação muito mais simples. Talvez justamente por isso a dimensão presencial da universidade tenha se tornado ainda mais importante.

O valor do campus não está apenas em concentrar salas de aula. Está em concentrar pessoas, experiências e encontros que não são facilmente reproduzidos numa plataforma. Empresas juniores, projetos de extensão, iniciação científica, centros acadêmicos, eventos, palestras, grupos de estudo e convivência entre cursos diferentes ampliam a formação de um jeito que o conteúdo formal, sozinho, dificilmente consegue reproduzir.

Mas esse valor só se realiza plenamente quando o estudante consegue participar.

Então a pergunta talvez seja outra

O título deste texto pergunta se o estudante de Administração ainda quer viver o campus. Depois de olhar os dados, eu desconfio que essa pergunta seja incompleta. Talvez seja mais útil perguntar quanto o estudante consegue viver o campus.

A diferença é pequena na formulação, mas grande na interpretação. Se o problema for desinteresse, a resposta tende a ser criar atividades mais atraentes. Se houver também uma questão de disponibilidade, entram outras variáveis: horário, concentração de atividades, comunicação, integração com disciplinas, flexibilidade e organização da própria experiência universitária.

Isso não significa adaptar toda a universidade à agenda individual de cada aluno, nem transformar tudo em atividade remota. Seria impraticável e, em muitos casos, destruiria justamente aquilo que o campus tem de melhor. Significa apenas levar a rotina real dos estudantes a sério e reconhecer que oferecer uma oportunidade não é a mesma coisa que torná-la acessível.

A pesquisa tem um recorte específico: 377 estudantes de Administração da UFPE, pesquisados em 2025. Ela não representa todos os universitários brasileiros. Mas deixa uma pergunta que pode ser útil para outras instituições também: se acreditamos que a universidade é mais do que sala de aula, não basta oferecer uma vida universitária rica. É preciso descobrir quem consegue estar lá quando ela acontece.

Nem tudo que importa já tem nome.

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