Pular para o conteúdo
ANTES DO ÓBVIO

Artigo

Para o estudante de Administração, o problema começa antes mesmo da aula?

7 set, 2026 • 6 min de leitura

Quando se fala em permanência universitária, quase sempre a atenção vai para o que acontece dentro do curso: qualidade das aulas, currículo, relação entre teoria e prática, professores, estágio, mercado de trabalho. Tudo isso importa, claro. Mas os dados que levantamos com estudantes de Administração da UFPE mostram que, para uma parcela relevante deles, a dificuldade começa antes de qualquer conteúdo, prova ou atividade acadêmica. Começa no caminho até a universidade.

Em 2025, numa turma da manhã de Estatística Aplicada à Administração, conduzimos uma pesquisa com 377 estudantes do curso de Administração da UFPE. Os alunos da disciplina participaram da construção do questionário, da aplicação, da tabulação e da análise dos dados. A ideia era usar a estatística para olhar para um problema real da universidade, e não apenas para exercícios artificiais.

Quando perguntamos quais eram os principais desafios para permanecer no curso, deslocamento e distância apareceram entre os fatores mais citados: cerca de 44% dos estudantes apontaram esse problema. Cada respondente podia escolher até três desafios, então não se trata de dizer que a distância explica, sozinha, a permanência ou a evasão. Mas é difícil tratá-la como questão periférica quando quase metade da amostra a menciona.

O tempo de deslocamento muda a experiência

O dado fica mais interessante quando se cruza essa percepção com o tempo gasto para chegar à UFPE. Entre os estudantes que levavam até 30 minutos, cerca de 17% apontavam deslocamento ou distância como desafio. Na faixa de 31 a 60 minutos, o percentual subia para 38%. Entre 61 e 90 minutos, chegava a 59%. E, entre os que levavam mais de 90 minutos, alcançava 70%.

É uma progressão muito clara. Quanto mais longa a viagem, maior a presença do deslocamento como problema relatado pelo próprio estudante.

Para quem leva uma hora e meia para chegar à universidade, uma aula de duas horas não ocupa apenas duas horas do dia. Há o tempo de ida, a volta, a espera, as conexões, a alimentação, os intervalos entre uma atividade e outra. Dependendo da rotina, quatro ou cinco horas podem desaparecer em torno de uma única aula.

Esse tempo não sai de um espaço vazio. Ele compete com estudo, trabalho, descanso, família e todas as outras obrigações que continuam existindo fora do campus.

O mesmo campus pode estar a distâncias muito diferentes

O transporte coletivo é o principal meio de chegada à UFPE entre os estudantes pesquisados. Cerca de dois terços disseram utilizá-lo com maior frequência.

Os tempos de deslocamento mostram uma diferença importante. Entre os usuários de transporte coletivo, a mediana ficou em torno de 90 minutos. Entre aqueles que utilizavam carro ou moto próprios, a mediana foi próxima de 35 minutos.

Não dá para atribuir essa diferença apenas ao meio de transporte. Quem usa ônibus ou metrô pode morar mais longe, depender de mais conexões ou ter menos opções de rota. Ainda assim, o contraste ajuda a enxergar uma coisa que costuma desaparecer quando olhamos apenas para a grade curricular: o campus é o mesmo, mas chegar até ele não custa o mesmo tempo para todos.

Para alguns estudantes, a universidade está a meia hora de distância. Para outros, exige uma hora e meia de ônibus, espera e conexão. Formalmente, todos têm a mesma aula. Na prática, a experiência começa muito antes da sala.

Quando a distância entra na decisão de permanecer

A questão aparece também quando perguntamos sobre uma eventual decisão de trancar ou desistir. Entre os estudantes com deslocamento superior a 90 minutos que responderam à pergunta, cerca de um terço apontou transporte, distância ou deslocamento como o principal motivo que poderia levá-los a sair. Entre aqueles com tempos menores de viagem, esse percentual foi bem inferior.

A pergunta era hipotética, e é importante tratá-la assim. Não estamos dizendo que esses estudantes vão sair do curso nem que o deslocamento causa evasão. O que os dados mostram é que, para quem passa muito tempo no trajeto, a distância ganha peso na forma como o próprio aluno pensa sua permanência.

É aí que a discussão sobre permanência começa a escapar um pouco do campo estritamente acadêmico. Bolsa, alimentação, qualidade do curso e apoio estudantil continuam fundamentais, mas a geografia também entra nessa conta.

Universidade pública não significa custo zero

O questionário perguntou também quanto os estudantes gastavam, em média, por mês para frequentar a universidade, considerando transporte, alimentação e outros custos. A mediana ficou em torno de R$ 250 mensais.

Esse valor não é apenas de transporte, e não deve ser lido dessa forma. Mas ele ajuda a lembrar algo óbvio, que às vezes some do debate: não pagar mensalidade não significa estudar sem custo.

Para quem mora longe, depende de transporte coletivo ou já precisa trabalhar, tempo e dinheiro se acumulam. O acesso formal à universidade pode estar garantido, mas a permanência depende de uma série de condições que continuam sendo pagas pelo estudante todos os dias, em dinheiro, em horas e em energia.

A permanência também tem geografia

Durante muito tempo, o debate sobre ensino superior público se concentrou, com razão, em vagas, renda, cotas e acesso. Talvez a discussão sobre permanência precise olhar com mais atenção para a dimensão espacial da experiência universitária.

Uma vaga pode ser gratuita e exigir duas ou três horas diárias de deslocamento. Um curso pode ter bons professores, currículo adequado e boa estrutura, mas ainda impor uma rotina muito pesada para quem mora longe e depende de transporte coletivo.

Não há solução simples para isso. Universidades atendem áreas amplas, concentram laboratórios, bibliotecas e serviços em determinados campi e não podem simplesmente redesenhar sua localização. Mas é possível pensar melhor a distribuição dos horários, a concentração de atividades num mesmo dia, o uso criterioso de formatos híbridos quando fizer sentido, políticas de transporte e até a relação entre universidade e planejamento urbano.

Nada disso substitui qualidade acadêmica. Só reconhece que chegar à universidade também faz parte da experiência de estudar nela.

Um recorte específico, uma pergunta que vale mais longe

Esta pesquisa tem um limite claro: estamos falando de 377 estudantes de Administração da UFPE, pesquisados em 2025. Não é uma amostra representativa de todos os universitários brasileiros, e não deve ser tratada assim.

Mas os dados ajudam a formular uma pergunta que outras instituições também podem fazer: quanto do esforço necessário para permanecer num curso acontece antes mesmo de o estudante entrar na sala de aula?

No nosso grupo, deslocamento e distância aparecem entre os principais desafios relatados, e essa percepção cresce de forma bastante nítida à medida que aumenta o tempo de viagem.

Talvez, por isso, parte da discussão sobre permanência precise começar um pouco antes da porta da sala.

No caminho até ela.

Nem tudo que importa já tem nome.

Receba o Antes do Óbvio: uma grande pauta da semana e mais dois sinais para entender as transformações que estão acontecendo antes de virarem consenso.