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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

Estudantes de Administração querem menos teoria, ou mais sentido naquilo que aprendem?

6 set, 2026 • 8 min de leitura

Existe uma leitura muito fácil, e por isso mesmo perigosa, quando estudantes dizem que um curso é “teórico demais”. A primeira reação pode ser concluir que os alunos querem menos conteúdo, menos leitura, menos fundamentos ou uma formação mais simples. Eu não acho que os dados que levantamos permitam essa interpretação. O que aparece, na verdade, é uma questão mais interessante: para parte dos estudantes, a teoria parece perder valor quando sua conexão com a prática não é suficientemente visível.

Em 2025, numa turma da manhã de Estatística Aplicada à Administração da UFPE, conduzi com os alunos uma pesquisa sobre permanência no curso. O levantamento ouviu 377 estudantes de Administração da própria universidade. Os alunos da disciplina participaram diretamente da construção do questionário, da aplicação, da tabulação e da análise dos dados. Uma das perguntas permitia que cada respondente indicasse até três desafios para permanecer na graduação, entre eles dificuldade financeira, conciliação com trabalho, deslocamento, desmotivação, pouca conexão com o mercado, carga horária inflexível e “aulas muito teóricas, com pouca prática”.

Aproximadamente 32% dos estudantes pesquisados escolheram justamente essa última alternativa. É um percentual relevante, mas ele precisa ser lido com cuidado. A pesquisa não perguntou se os estudantes eram contra teoria, nem se desejavam reduzir a formação conceitual. Perguntou sobre a percepção de aulas muito teóricas e com pouca prática como um desafio para permanecer no curso. A distinção é importante.

A teoria não aparece como algo dispensável

Quando olhamos para outras respostas da mesma pesquisa, a ideia de que os estudantes querem simplesmente “menos teoria” perde força. A integração entre teoria e prática aparece entre os atributos mais valorizados para a permanência no curso. O próprio instrumento investigava, além dessa integração, didática, contato com o mercado de trabalho, oportunidades de estágio, aulas de campo, disciplinas práticas e atualização curricular.

Isso muda bastante a leitura. Um estudante pode considerar a formação excessivamente teórica sem rejeitar a teoria. Pode estar dizendo que não consegue enxergar com clareza onde determinados conceitos encontram decisões, organizações e problemas reais. Em Administração, essa questão é particularmente relevante porque o curso trabalha com áreas que exigem boa capacidade de abstração — economia, estatística, finanças, estratégia, teoria das organizações — mas cujo valor se torna mais evidente quando o estudante compreende para que servem e em que situações podem ser aplicadas.

Os cruzamentos da pesquisa reforçam essa interpretação. Entre os estudantes que apontaram “aulas muito teóricas, com pouca prática” como um dos desafios para permanecer, cerca de 80% classificaram o contato com o mercado de trabalho como muito importante. Entre os demais, esse percentual ficou em torno de 69%. Não é uma diferença que autorize dizer que um grupo “quer mercado” e o outro não. O contato com o mundo profissional é valorizado de forma ampla. O que aparece é uma intensidade maior justamente entre aqueles que percebem excesso de teoria.

A demanda por prática aparece de várias formas

Essa diferença se torna ainda mais clara quando se observam outros atributos. Entre os estudantes que percebem excesso de teoria e pouca prática, aproximadamente 57% consideraram aulas de campo ou práticas muito importantes. Entre os demais, foram cerca de 38%. Quando a pergunta era sobre a existência de disciplinas práticas, 60% do primeiro grupo atribuíram importância máxima a esse aspecto, contra aproximadamente 48% entre os outros estudantes.

Os resultados sugerem que a questão não se limita a desejar uma atividade diferente de vez em quando. Ela parece alcançar a própria experiência curricular. Há estudantes que querem perceber com mais clareza como conceitos, modelos e ferramentas se relacionam com situações que encontrarão nas organizações.

Isso não deveria ser interpretado como uma oposição entre universidade e mercado. Uma graduação não pode ser reduzida às necessidades imediatas das empresas, e a formação universitária perderia muito se abandonasse conhecimento teórico em favor apenas de técnicas de curto prazo. Administração não é um treinamento para reproduzir práticas existentes. Uma boa formação precisa permitir ao aluno compreender organizações, questionar decisões, interpretar fenômenos econômicos e sociais e lidar com problemas que ainda nem existem.

Ao mesmo tempo, teoria e prática não precisam ocupar mundos separados.

A percepção do curso também muda

Há outro cruzamento que merece atenção. Quando perguntamos qual seria o principal motivo caso o estudante decidisse trancar ou desistir, uma das alternativas era “o curso não atende às expectativas”. Entre aqueles que percebiam aulas muito teóricas e com pouca prática, cerca de 20% escolheram essa opção. Entre os demais, o percentual ficou em torno de 8%.

É uma diferença relevante, embora deva ser interpretada dentro dos limites da pesquisa. A pergunta era hipotética e não permite afirmar que esses estudantes irão abandonar o curso. Também não permite dizer que a percepção de excesso de teoria seja a causa de uma eventual desistência. O que os dados mostram é uma associação: a insatisfação com a relação entre teoria e prática aparece com mais frequência entre aqueles que também identificam uma distância maior entre o curso e suas expectativas.

O mesmo cuidado vale quando olhamos para a pergunta sobre ter pensado em desistir ou trancar. O questionário perguntava diretamente se o estudante já havia cogitado deixar o curso. Essa intenção aparece com maior frequência entre os estudantes que percebem excesso de teoria e pouca prática. Novamente, isso não transforma uma variável em causa da outra. Mas sugere que a experiência acadêmica merece estar no centro da discussão sobre permanência, ao lado de fatores como trabalho, deslocamento, renda e flexibilidade.

Não parece ser apenas uma reação de quem acabou de chegar

Uma hipótese possível seria imaginar que essa percepção de excesso de teoria estivesse concentrada nos estudantes dos primeiros períodos, ainda pouco familiarizados com a lógica do curso e esperando encontrar uma formação imediatamente aplicada. Os dados não apontam nessa direção. A proporção de estudantes que indicam “aulas muito teóricas, com pouca prática” é praticamente a mesma nos períodos iniciais e nos mais avançados.

Esse resultado me parece importante porque evita uma explicação confortável. Não dá simplesmente para atribuir a percepção à ansiedade de quem acabou de entrar na universidade. Ela permanece ao longo da trajetória acadêmica.

Isso não significa que todos os estudantes tenham a mesma experiência, nem que o curso inteiro possa ser caracterizado como excessivamente teórico. Estamos falando da percepção de uma parcela dos alunos pesquisados. Mas, quando aproximadamente um terço menciona esse aspecto e essa percepção aparece associada à valorização maior de aulas práticas, disciplinas práticas e contato com o mercado, há um tema pedagógico relevante a ser discutido.

O debate não deveria ser “teoria ou prática”

Eu evitaria completamente colocar essa discussão como uma escolha entre teoria e prática. É uma oposição ruim. Sem teoria, a prática tende a se transformar apenas em repetição daquilo que já é feito. Sem contato com situações concretas, a teoria corre o risco de ser percebida como um conjunto de conceitos que o estudante memoriza para a prova e depois abandona.

A questão interessante é como aproximar as duas coisas.

Isso pode significar trabalhar conceitos a partir de problemas reais, usar bases de dados de empresas e organizações, construir estudos de caso mais próximos do contexto dos alunos, ampliar projetos de extensão, trabalhar com empresas juniores, trazer decisões concretas para dentro da sala ou estruturar disciplinas em que o estudante precise usar os fundamentos teóricos para resolver problemas. Nada disso reduz a exigência acadêmica. Em muitos casos, faz exatamente o contrário, porque aplicar um conceito exige compreendê-lo de verdade.

Como professor, essa é uma discussão que me interessa especialmente. A universidade tem a responsabilidade de não seguir modismos e de preservar uma formação que vá além das necessidades imediatas do mercado. Mas também tem a responsabilidade de fazer com que o conhecimento produzido e ensinado consiga dialogar com o mundo que o estudante tenta compreender.

Os dados desta pesquisa têm um recorte claro. Foram 377 estudantes de Administração da UFPE, pesquisados em 2025. Eles não representam todos os estudantes de Administração do Brasil, e seria incorreto usar esses números para descrever todo o ensino superior. Ainda assim, os resultados levantam uma pergunta que poderia ser investigada em outras instituições: quando um aluno diz que seu curso é teórico demais, ele está realmente pedindo menos teoria ou está dizendo que ainda não consegue perceber com clareza o sentido daquela teoria?

Essa diferença é importante.

Uma boa graduação em Administração precisa de teoria sólida. Talvez o desafio esteja menos em reduzir essa teoria e mais em tornar mais visível a ponte entre o que se aprende, os problemas que se enfrentam e as decisões que um administrador terá de tomar.

Nem tudo que importa já tem nome.

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