Há uma imagem de estudante universitário que ainda orienta boa parte da organização dos cursos presenciais: alguém que tem o estudo como atividade principal, consegue organizar a rotina em torno das aulas, participa de eventos, circula pelo campus e tem alguma margem para acomodar trabalhos, provas e atividades acadêmicas. O problema é que esse estudante parece representar cada vez menos a realidade de quem está na graduação. Em Administração, isso é especialmente visível porque muitos alunos começam a estagiar e trabalhar cedo, antes mesmo de chegar à metade do curso.
Em 2025, numa turma da manhã de Estatística Aplicada à Administração da UFPE, conduzi com os alunos uma pesquisa sobre permanência no curso. O levantamento ouviu 377 estudantes de Administração da própria universidade. Os alunos da disciplina participaram diretamente da construção do questionário, da aplicação, da tabulação dos dados e da análise dos resultados. Foi uma experiência de estatística aplicada no sentido mais concreto possível: partimos de um problema real da universidade, construímos os dados e usamos as ferramentas da disciplina para tentar entender melhor o que estava acontecendo.
Uma nova leitura dessa base me levou a uma pergunta diferente daquela que normalmente fazemos quando falamos de evasão: a graduação em Administração ainda está organizada para quem pode apenas estudar?
O aluno que só estuda já é minoria
Os dados dão motivos para levar essa pergunta a sério. Entre os estudantes que responderam à questão sobre ocupação, apenas 32% disseram que só estudavam. Os demais conciliavam a graduação com estágio, bolsa ou monitoria, trabalho em empresa familiar, emprego fixo ou atividade empreendedora. No turno da noite, essa realidade ficava ainda mais evidente: apenas 23% disseram que só estudavam, enquanto 39% tinham emprego fixo.
Isso muda a maneira de olhar para a rotina universitária. O aluno que trabalha não é uma exceção que precisa ser acomodada dentro de um modelo desenhado para outra pessoa. Em determinados grupos, ele é a maioria. E quando cruzamos as respostas de quem trabalha com as de quem só estuda, algumas diferenças aparecem de maneira bastante clara.
Quando trabalho e graduação começam a entrar em conflito

Entre os estudantes que trabalhavam ou empreendiam, 59% apontaram a dificuldade de conciliar trabalho e estudo como um dos principais desafios para permanecer no curso. Entre aqueles que só estudavam, esse percentual era de aproximadamente 10%. É uma diferença grande demais para ser tratada apenas como uma questão de organização pessoal. Naturalmente, quem trabalha terá menos tempo disponível, mas a pergunta relevante é até que ponto a própria organização do curso aumenta ou reduz esse conflito.
A carga horária inflexível aparece nessa mesma direção. Cerca de 17% dos estudantes que trabalhavam ou empreendiam indicaram esse fator como um desafio, contra aproximadamente 7% entre os que só estudavam. O problema, portanto, não parece ser apenas ter menos horas livres. Quem trabalha também tem menos margem para reorganizar a própria agenda quando a universidade oferece poucas alternativas de horário, pouca flexibilidade entre turnos ou formatos muito rígidos de participação.
Esse conflito fica ainda mais evidente quando perguntamos qual seria o principal motivo para uma eventual desistência ou trancamento. Entre os estudantes que trabalhavam ou empreendiam, cerca de 40% indicaram a dificuldade de conciliar trabalho e estudo. Entre quem só estudava, o percentual ficou próximo de 20%. Isso não significa que o trabalho explique sozinho uma eventual saída do curso, mas mostra que a relação entre vida profissional e rotina acadêmica pesa muito mais para quem já está inserido no mercado.
Flexibilidade não significa querer menos formação
Quando passamos a olhar para o que esses estudantes consideram importante para permanecer na graduação, aparece outro ponto interessante. Entre quem trabalhava ou empreendia, 72% classificaram como importante ou muito importante a oferta de atividades em formato EAD ou híbrido. Entre os que só estudavam, foram 57%. Seria fácil olhar para esse resultado e concluir que o estudante trabalhador quer uma formação mais conveniente ou menos exigente, mas os próprios dados mostram que essa interpretação é simplista.
Na mesma pesquisa, 74% dos estudantes que trabalhavam ou empreendiam disseram considerar muito importante a integração entre teoria e prática. Entre os que só estudavam, esse percentual era de 56%. Ou seja, o mesmo grupo que valoriza mais a flexibilidade também valoriza mais uma formação conectada à prática. Isso sugere que o estudante trabalhador não está simplesmente pedindo menos universidade. Ele parece querer uma graduação que caiba melhor na sua rotina e que, ao mesmo tempo, faça mais sentido em relação ao mundo profissional que ele já começou a conhecer.
Essa diferença é importante porque flexibilidade e rigor acadêmico não são opostos. Uma boa graduação em Administração precisa de teoria, leitura, fundamentos de economia, finanças, estatística, estratégia, organizações e várias outras áreas. Não existe boa formação profissional sem conhecimento acumulado e capacidade analítica. Mas não há razão para concluir que esse rigor dependa necessariamente de horários rígidos, de um único formato de aula ou de pouca possibilidade de combinação entre atividades presenciais e digitais.
Trabalhar também muda a experiência de estar na universidade
Há ainda outro aspecto que costuma receber menos atenção: trabalhar pode mudar não apenas o tempo disponível para estudar, mas a própria experiência de estar na universidade. Quando pedimos aos alunos que avaliassem eventos, palestras e atividades acadêmicas, 57% dos que só estudavam deram avaliações boas ou ótimas. Entre os que trabalhavam ou empreendiam, esse percentual caiu para 38%.
Esse resultado merece atenção porque a formação universitária não acontece apenas dentro da sala de aula. Uma parte importante da experiência vem das conversas com outros estudantes, das palestras, dos projetos, dos eventos, das atividades de extensão, das relações com professores e das oportunidades de construir redes. Quem trabalha tende a chegar mais perto da hora da aula e sair logo depois. Tem menos disponibilidade para permanecer no campus, participar de uma atividade no meio da tarde ou simplesmente circular pela universidade sem uma agenda apertada.
Em Administração, isso pode ser especialmente relevante. O curso tem uma relação muito próxima com empresas, organizações, empreendedorismo, mercado de trabalho e redes profissionais. Se justamente o estudante que já está inserido nesse mundo começa a viver menos a universidade fora da sala, existe aí uma contradição que vale ser observada.
O estudante mudou. A organização dos cursos acompanhou?
Durante muito tempo, o ensino superior foi organizado a partir de uma sequência relativamente clara: primeiro estudar, depois trabalhar. Essa fronteira está cada vez menos definida. Muitos estudantes começam a trabalhar antes de concluir a graduação, seja por necessidade financeira, seja para ganhar experiência profissional, seja porque recebem uma oportunidade e não querem perdê-la. Em Administração, estágio, emprego e empreendedorismo aparecem cedo na trajetória acadêmica.
A universidade não precisa se organizar exclusivamente em função do mercado de trabalho. Esse seria outro erro. A formação universitária tem responsabilidades intelectuais, culturais e sociais que vão muito além da preparação imediata para um emprego. Mas reconhecer isso não impede de perguntar se algumas formas de organização acadêmica ainda fazem sentido diante do perfil real de quem está na sala.
O recorte desta pesquisa precisa ser mantido com clareza. Estamos falando de 377 estudantes de Administração da UFPE, pesquisados em 2025. Não é uma amostra representativa de todos os estudantes de Administração do Brasil e muito menos do ensino superior brasileiro. Esses dados não autorizam esse tipo de generalização.
Mas uma pesquisa localizada pode levantar perguntas importantes. Como é o perfil dos estudantes de Administração em outras universidades? Quantos conseguem se dedicar apenas ao curso? Quantos trabalham? As dificuldades de conciliação se repetem? A flexibilidade tem o mesmo peso? A experiência universitária também diminui entre os que trabalham?
Essas são perguntas que valeria a pena investigar em escala maior. Por enquanto, os dados dos estudantes de Administração da UFPE já mostram algo relevante: a maioria não vive uma graduação separada do restante da vida. Trabalho, estágio, deslocamento e outras responsabilidades já fazem parte da experiência universitária.
Talvez, então, a questão não seja tornar a graduação mais fácil. A questão é saber se continuamos organizando cursos para um estudante que tem todo o tempo disponível para estudar quando, na prática, esse estudante já não é maioria.
