Há décadas o Brasil discute, com razão, quem consegue entrar na universidade pública. Vagas, cotas, acesso, permanência financeira — o debate sobre inclusão no ensino superior avançou muito nas últimas duas décadas. Mas há uma pergunta que recebeu bem menos atenção: o que acontece depois que o aluno entra?
Fiz essa pergunta de forma direta a 377 estudantes de Administração da UFPE, numa pesquisa aplicada no ano passado em uma turma de Estatística Aplicada à Administração. O resultado é um retrato pouco confortável, mas extremamente útil para quem pensa gestão universitária, política educacional ou, simplesmente, formação de capital humano no Brasil.
O dado que assusta — e o que vem depois dele
41,8% dos estudantes já pensaram em desistir ou trancar o curso. Quase metade. Isolado, esse número é alarmante. Mas ele só faz sentido quando cruzado com outra pergunta: por que.
Deslocamento e distância até a universidade lideram a lista de desafios, citados por 44% dos respondentes. Em seguida vem a dificuldade de conciliar estudo e trabalho (37%) e aulas excessivamente teóricas, com pouca prática (32%). A desmotivação com o curso completa o quadro.
Nenhum desses fatores é sobre falta de dinheiro ou falta de vontade. São sobre desenho institucional — sobre um modelo de graduação pensado para um estudante que, cada vez mais, não existe: aquele com disponibilidade integral, sem trabalho, sem deslocamento longo, sem outras responsabilidades.
O dado que muda a conversa
O ponto mais revelador da pesquisa, na minha leitura, não é o dos 41,8%. É outro: perguntamos a quem já cogitou desistir o que faria se realmente saísse. Cerca de 60% considerariam apenas interromper temporariamente os estudos para trabalhar ou empreender. Quase metade migraria para outro curso presencial na própria UFPE. Apenas 4% considerariam abandonar de vez os estudos.

Isso significa que, para a esmagadora maioria desses estudantes, pensar em sair do curso não é pensar em desistir de estudar. É procurar uma forma diferente de continuar estudando — outro curso, outro formato, uma pausa temporária, uma rotina mais compatível com a vida real.
Por que isso importa para quem pensa desenvolvimento
Trato ecossistemas de inovação e desenvolvimento territorial no meu trabalho à frente do Porto Digital, e uma coisa fica cada vez mais clara: nenhum ecossistema de inovação se sustenta sem capital humano formado — e formado até o fim. Evasão universitária não é só uma estatística educacional. É uma perda direta de produtividade, de renda futura e de competitividade regional.
Quando um sistema de ensino superior público forma metade da capacidade que poderia formar porque o desenho institucional não dialoga com a vida concreta do estudante, o custo não é só individual. É econômico, e é coletivo.
A pesquisa mostra que, entre os estudantes que já pensaram em desistir, a demanda por flexibilidade de horários, possibilidade de troca de turno e formatos híbridos aparece com muito mais força do que entre os que nunca cogitaram sair. Isso não é pedido de facilidade. É adequação a uma realidade em que o estudante de Administração começa a trabalhar cedo, estagia, empreende e precisa encaixar a graduação numa rotina que os horários rígidos tradicionais simplesmente não acomodam.
Rigor não é sinônimo de rigidez
Quero ser preciso aqui, porque esse é um ponto onde a discussão costuma escorregar para o lado errado. Flexibilizar não significa abrir mão de rigor acadêmico. Uma graduação em Administração exige teoria sólida, carga horária consistente e formação robusta — isso não está em discussão.
O que está em discussão é se a rigidez institucional — horário fixo, formato único, pouca integração entre teoria e prática — é condição necessária para esse rigor, ou apenas um hábito herdado de um modelo de universidade que já não corresponde ao perfil de quem hoje ocupa as vagas do ensino superior público.
São coisas diferentes. E tratá-las como a mesma coisa é, ao meu ver, um dos motivos pelos quais a discussão sobre evasão avança tão pouco.
A pergunta certa
Esta pesquisa tem um recorte específico — estudantes de Administração da UFPE, em 2025 — e não deve ser generalizada além disso. Mas a pergunta que ela levanta vale para qualquer instituição de ensino superior público no Brasil: onde, exatamente, permanecer deixou de ser viável para o estudante?
Não é a mesma pergunta que fazer por que o aluno saiu. É perguntar em que ponto do percurso a universidade deixou de caber na vida real de quem estuda nela.
Passamos décadas perguntando quem consegue entrar. Está na hora de perguntar, com a mesma seriedade, quem consegue ficar — e o que precisa mudar para que mais gente fique.
