Se você está na faculdade e já começou a pensar em estágio, trainee ou primeiro emprego, provavelmente percebeu uma contradição antiga: muitas empresas pedem experiência justamente de quem está tentando conseguir a primeira experiência. Isso sempre existiu, mas o contexto mudou. Parte das tarefas mais simples que serviam como porta de entrada para profissionais jovens está sendo automatizada, e a inteligência artificial acelerou muito esse processo.
Por isso, se eu estivesse hoje na universidade, não pensaria apenas no diploma ou nos certificados que poderia acrescentar ao currículo. Eu prestaria atenção às competências que as empresas tentam perceber quando ainda não há uma longa trajetória profissional para avaliar.
E começaria desmontando um mito: a faculdade que você fez ainda importa. Talvez importe menos depois de alguns anos de carreira, quando experiência e entrega passam a falar mais alto, mas para quem está começando ela continua sendo um sinal relevante. Muitos processos seletivos começam com filtros automáticos por curso, formação, experiências e palavras-chave. A tecnologia não acabou com os filtros; muitas vezes, apenas os tornou mais rápidos.
Então aquela conversa de que a formação não importa, ou de que todas as instituições são percebidas da mesma forma pelo mercado, é simplesmente furada. Elas não são, e estudar numa instituição reconhecida ainda ajuda bastante na porta de entrada.
Isso cria uma contradição interessante. As empresas dizem procurar iniciativa, liderança, comunicação, capacidade de aprender e trabalho em equipe, mas o primeiro filtro enxerga muito melhor aquilo que cabe numa base de dados. É muito mais fácil identificar onde alguém estudou do que perceber se aquela pessoa consegue resolver um problema quando ninguém lhe entregou o passo a passo.
Por isso, eu diria: a faculdade importa, mas não importa sozinha.
Um dos sinais mais importantes é iniciativa. “Proatividade” virou uma palavra tão usada em processo seletivo que quase perdeu o sentido. O que importa é conseguir mostrar uma situação em que você percebeu um problema e fez alguma coisa sem que alguém precisasse mandar.
É aí que Empresa Júnior, projeto de extensão, iniciação científica, movimento estudantil, organização de evento, trabalho voluntário ou participação em algum projeto real ganham valor. No meu caso, olhando para trás, provavelmente uma das coisas mais importantes que fiz foi ter sido presidente do DCE da UFPE. Eu não chamava aquilo de formação em liderança, negociação ou gestão de conflitos. Era apenas a vida acontecendo: reunião, divergência, disputa de ideia, necessidade de convencer alguém, responsabilidade por decisões e, muitas vezes, conflito. Aprendi ali muita coisa que nenhuma disciplina conseguiria ensinar do mesmo jeito.
Também levaria muito a sério coisas que parecem básicas: saber ler e escrever bem, interpretar números, comunicar uma ideia e trabalhar com pessoas. Ler bem é entender argumento, evidência e contexto. Escrever bem é conseguir organizar o pensamento para que outra pessoa entenda. E saber lidar com números significa olhar para uma tabela, um percentual ou um gráfico sem se deixar enganar facilmente e entender o que aqueles números realmente mostram.
Comunicação também não é ser extrovertido, mas conseguir explicar uma questão complexa, fazer uma boa apresentação, escrever de forma clara e perceber quando aquilo que parecia óbvio para você não ficou óbvio para quem estava ouvindo. E trabalhar com pessoas significa conseguir avançar mesmo quando há opiniões, ritmos e prioridades diferentes.
O inglês continua importante. Claro que a tradução automática ajuda muito, mas quem consegue acessar diretamente pesquisas, documentação, cursos e discussões internacionais ainda tem uma vantagem clara.
E há uma competência que eu trataria hoje como pré-requisito: saber trabalhar com inteligência artificial. Não estou falando de abrir um chatbot e pedir um texto. Estou falando de usar IA para pesquisar, confrontar fontes, analisar documentos, explorar dados, preparar uma reunião, revisar argumentos, estruturar apresentações e testar alternativas. Em resumo, ter uma boa estratégia pessoal e profissional para combinar bem essas plataformas no trabalho.
Mas há um ponto essencial: a IA não substitui o conhecimento, mas potencializa quem sabe. Se você conhece um assunto, percebe quando a resposta veio superficial, identifica erros e faz perguntas melhores. Duas pessoas podem usar a mesma plataforma e entregar resultados completamente diferentes. A diferença estará cada vez mais na combinação entre conhecimento, julgamento e IA.
Por isso, se você está na faculdade e preocupado com emprego, eu não esperaria a formatura. Procuraria experiências reais, assumiria responsabilidade, tentaria liderar alguma coisa, melhoraria meu inglês, aprenderia a trabalhar com números e usaria IA de forma séria.
Não para encher o LinkedIn, mas para chegar ao primeiro processo seletivo tendo alguma coisa de verdade para contar.
Quando muita gente tem formação parecida, a pergunta que começa a diferenciar é simples: o que você já consegue fazer com aquilo que sabe?
